Barraco no Morro

A agência onde eu trabalho fica num dos lugares mais lindos do ES, o Morro do Moreno, que tem vista privilegiada da baía de Vitória e casas maravilhosas. Sem meias palavras, só tem rico por aqui. Gente cheia da grana, bufunfa. Mas dinheiro nunca foi sinônimo de educação. Infelizmente não temos só os simpáticos macacos como vizinhos. Ao nosso lado mora uma cobra. E das venenosas mesmo. A mulher é insuportável e desde que viemos para cá, ela sempre tem alguma reclamação a fazer.

Já reclamou de uma vez que nosso portão abriu sozinho durante a noite. Ele estava com mau contato e, às vezes, abria e fechava por conta própria. Era todo cheio de vontades. Ao invés da infeliz nos alertar, ela veio chorar as mágoas, falando que a casa dela tinha ficado desprotegida com o NOSSO portão aberto. Já cuidamos do gatinho dela que apareceu por aqui. O coitado miava feito um condenado e era impossível que ninguém ouvisse de lá. Trouxemos comida, demos água e dengo. O bichano até dormia no sofá! Depois de umas 2 semanas, ela perguntou à Paula (esposa do Turra) se tinha aparecido um gato aqui. Paula falou que tinha um gato aqui, sim. E ela insinuou que estávamos mantendo o gato dela em cativeiro. Paula logo falou que ninguém tinha roubado o gato, não. E que não sabia como ela ainda não tinha ouvido os miados dele.

Outra vez foi quando ela berrou aqui na nossa janela que o som estava muito alto e o filho pequeno estava dormindo. O referido barulho vinha do incrível alto-falante de um minúsculo PDA. Ao invés de aprendermos a lição e só trabalharmos com a bendita janela fechada, não. A gente gosta de sofrer. Mais uma vez, a vizinha barraqueira teve a nossa atenção com seus gritos insuportáveis. Turra estava passando pelo corredor e veio saber do que se tratava.

Cobra: O “Seu” Sergio tá aí?
Turra: Não. Posso ajudar?
Cobra: É que tá vindo muito barulho daí.
Turra: Daqui? Onde?
Cobra: É a banda de vocês. Tá vindo muito barulho e aqui tem criança.
Turra: Mas a gente não ta ensaiando ainda. É a banda do vizinho da frente.
Silêncio. Grilos.
Cobra: Ah... erh...
Todo mundo rolando de rir aqui.
Cobra: Nossa... é de lá? Mas parece que vem daí...
Turra: Então, como eu estava falando, o ensaio é do vizinho. O nosso estúdio ainda nem está pronto.

A revolta foi geral. Lembramos de quando mudamos para cá. Ouvíamos Psy, Trance e vários sons que não tinham letras o dia inteirinho! O filho mais velho fazia altas festas porque os pais não estavam em casa. E com a piscina vivia cheia, não era apenas o barulho que incomodava. A inveja também. Os malditos se acabando durante os lindos dias de verão, e a gente no lerê, lerê.

Mas aí, os pais voltaram para casa e as festas acabaram. Bons tempos, aqueles. Éramos felizes e não sabíamos.

Eis que, semana passada, na hora do almoço, durante uma partida de sinuca muito bem disputada entre os meninos, a louca começou a babar verde. Infelizmente eu perdi o barraco, mas ouvi vários relatos. Segurem aí.

- Seu Sergio! Seu Paulo! Seu Sergio! Seu Paulo!

Do jeito que ela gritava, os meninos contaram que parecia que tinha ladrão em casa e ela pedia socorro. Rafael, com o taco de sinuca na mão, foi acudir. Só faltava o giz atrás da orelha.

Rafa: Pois não?
Cobra: O que é isso?! Tem muito barulho aí! É um absurdo, aqui tem criança dormindo e vocês ficam aí, gritando e xingando. Esse lugar parece um, um... um boteco!
Rafa: Minha senhora, se a senhora pedisse com educação, com certeza a gente tinha controlado mais. Até porque estamos aqui dentro de casa, não tem janela e nem dá pra saber que o som vai até aí.
Turra (chegando): O que está aconteceu?
Cobra: Vocês tão sempre fazendo barulho! Eu não agüento mais tanta confusão vinda daí! É só gritaria! Baixaria! Vocês xingam muito! Aqui Parece um, um, um boteco! Não tem educação, bla, bla, bla.
Turra: Pera lá. Aqui ninguém xinga, não. Somos todos evangélicos.

O povo ria horrores. Berger pedia para fazer um bundalelê pra ela.

Cobra: Vocês incomodam muito. É porra pra lá, é porra pra cá! Buteco, bla, bla, bla.

Turra: E a senhora é muito mal educada, porque quando fica aí, gritando que com seu marido, xingando, chamando ele de frouxo, e safado, discutindo em voz alta, eu tenho que ouvir daqui, né? Eu não tenho que ouvir a sua vida conjugal aqui! E isso me incomoda muito! Não dá, não!
Cobra (desconcertada): Mas eu não brigo todo o dia, não! A gente só discute uma vez por mês!

Berger, a esta altura, estava sendo segurado pelos outros meninos porque queria abaixar as calças para ela e fazer um giroscópio com o biláu.

Turra: E tem mais. Quando você não está em casa, seu filho faz festa aí! E bota som lá nas alturas e agora eu tenho que ouvir também Britney Spears e Kelly Key e ainda tenho que ficar vendo ele se pegando com outros homens.

1 segundo de silêncio de uma Mãe que é a última a saber da opção sexual do filho.

Cobra: Se, se, se ele tá se agarrando, incomoda vocês aí?
Turra: Incomoda, sim. E tem mais. Aqui ninguém vai diminuir o barulho, não. Chama o disque-silêncio e manda medir o barulho, que o boteco vai continuar. – e entrou.

Quando acabei de saber da história, estava com os olhos esbugalhados.

Eu: Turra!!!
Turra: Eu não falei pra ofender o cara, não. Cada um faz o que bem entender da vida. Mas eu tinha que me vingar da mulher. Eu falei pra deixar a mulher puta.
Eu: Será que ela sabia?
Turra: O que?
Eu: Sei lá, que o filho dela é gay?
Turra: Sei lá. Só sei que ela deve ter ido dar uma batida no quarto dele. E na verdade, eu nunca vi ele se pegando com ninguém, não. Mas já vi pegação de homem, sim!

Esses são os caras que eu convivo todos os dias. Politicamente incorretos. Incorretíssimos. Graças a Deus.


8 comentários:

Mila Neri disse...

Incorretíssimos! Graças a Deus!
ahuahuaua

Re disse...

Que delícia de briga.... rsrsrsr

isaBela araújo silvA disse...

hahahaha. eu fiquei com pena do moleque que vai pagar o pato, mas tudo bem.

Flávia D. disse...

Eu já tive uma vizinha pavorosa também...ninguém merece! hehe
bjos

K. disse...

Estou muda..perplexa...paradinha aqui imaginando o que o pobre do menino deve ter ouvido...

Evandro Varella disse...

Dedinhos,
Só agora pude ler essa história... genial, me lembrou muito as histórias do Pedro que também adoro.
Grande abraço e saiba que é sempre um prazer vir por essas suas praias.
Abraços

Pedro disse...

Anna,

Sacanagem! Agora o rapaz deve estar fazendo terapia e nem sabe pq... rsrs.
Excelente texto, pra variar!

Beijo!

Anônimo disse...

amiga anna!!!
tem vaga aí na agência para eu trabalhar??? rsrs
beijos
frrravinha