Lambada, a dança proibida lá em casa.



Mesmo com o nome péssimo, os dançarinos feios e as roupinhas cafonérrimas que o Kaoma se apresentava, eu adorava dançar lambada e gastar a sola do sapato rodopiando pra lá e pra cá, mas sem a sainha curta rodada que mostrava a calcinha e mantendo uma distânciazinha que impedia o esfrega-esfrega fatal. Coisa de centímetros. Acredite que isso é possível e não compromete a performance em nada. Lambadeira sim, mas com dignidade.

Aí, um belo dia uma amiga me ligou pra dizer que tinha arrumado um professor de lambada que ia dar as aulas em casa e pediu pra ser aqui, onde tem um bom espaço para todas as voltinhas necessárias.
- Flávia, quem me dera. Não sabe como meu avô é? Se meu vovô sonhar, só sonhar, Flávia, que eu danço isso, ele me mata! Tá louca?
- Mas seu avô chega tarde todo dia. Ele não vai ver.
- É? Mas se algo acontecer e ele chegar antes? Bem na hora em que eu estiver dançando? Nem quero pensar! Não. Aqui, não.
- Droga. Tem que ser aqui em casa, então. Pior que meu pai também não gosta. Espero que ele nunca esteja em casa. Ainda bem que ele chega tarde direto.

Mesmo as aulas não sendo na minha casa, eu fiz parte da turma de 6 amigas que ficaram craques em todos os passinhos. Quer dizer, em quase todos. A parte que o cara me jogava pra lá, depois me puxava e que eu tinha que ir e voltar fazendo movimentos circulares com a cabeça pra jogar os cabelos como se fossem as hélices de um helicóptero, não dava certo de jeito algum. É muita coisa pra controlar de uma só vez. Minha coordenação motora não permite. Depois de várias cabeçadas e um quase ataque de labirintite, o professor desistiu de mim. Saco. Mas fora isso, eu até que dançava direitinho.

Pagamos 15 aulas e sempre era uma festa quando estávamos lá, dançando. Eu ainda acho o ritmo contagiante e delicioso. Claro que não é música pra se ouvir. É música pra se dançar. E pra quem gosta de dançar junto. Só sei que falava tanto nas aulas que, no último dia, mamãe e vovó resolveram ir conferir como a bambina delas estava se saindo. Mas foi preciso uma operação de guerra. Vovô tinha chegado mais cedo aquele dia e estava azedo. Inventamos uma história de que tinha uma apresentação no meu colégio e elas tinham que ir. E lá fomos nós pra casa da minha amiga. Antes de sair, ainda encontramos um colega de vovô que veio trazer umas notas da TEXACO. Cumprimentamos rapidamente e saímos apressadas e sorridentes.

Essa noite a mãe da Flávia tinha feito um lanche especial porque todas as outras mães também tinham aparecido para o último dia. O professor estava sorridente e a aula durou mais tempo do que o combinado. Em meio a tantas conversas e gargalhadas, o comentário geral era que nenhum dos pais sabia que as filhas estavam ali, nem o próprio dono da casa, que nunca tinha hora pra chegar do trabalho. Depois de uns comes e bebes, o professor tirou as mães para dançar. Até vovó deu umas voltinhas. Então chegou o momento da dona da casa arrasar. Na hora em que a mãe da Flávia estava no meio da sala, meio encaixada no cara, com a cabeça virada para trás e quase encostada no chão, no rimo do "thanran, thanran, thanran, tharan", a porta se abre e aparece o marido. As mudanças na cara foram impressionantes. Parece que ele ia fala “boa noite”, e mudou pra “Que porra é essa?” e acabou num “Eu mato alguém!” Não sei como o professor não largou ela no chão. E pra piorar ainda mais a situação, o pai da Flávia era o homem que tinha ido à minha casa entregar as notas da Texaco para o meu avô. Só que estava tão chocado com a cena, que nem me viu direito. Vovó balbuciou um "Meu Deus". Vi que a outra porta estava aberta para entrar mais vento e nem quis saber se teria que apartar alguma briga. Puxei as duas e saímos de fininho pelos fundos. Nem quero imaginar se isso tivesse acontecido aqui no meu quintal com meu avô. Era divórcio na certa e retirada do testamento. Tá certo, vá lá. Não tem testamente, mas se tivesse, ele tiraria.

Depois de umas horas, a Flávia ligou falando que o bicho tinha pegado lá e que num determinado momento, ele comentou:
- E aquelas 3 que saíram por trás? Quem eram? Eu acho que conheço.

Só sei que não fomos descobertas por um triz e, principalmente, porque a mãe da Flávia roubou todas as atenções. Graças a Deus. Depois de um tempo, fui a Arraial D´Ajuda e coloquei todo o meu conhecimento em prática. Não fiz feio com nenhum dos nativos que me tirou pra dançar. Ano que vem eu quero fazer dança de salão. Os argentinos que se cuidem.

12 comentários:

isaBela araújo silvA disse...

dedinhos,
fiquei muitíssimo agradecida! chorei de rir, lembrei da minha meia-infância-quase-adolescência e do show do kaoma que me pai me proibiu de ir assistir em SP... kkkkkk. valeu!

Paula disse...

Putz, você só não conseguia girar a cabeça? Quem me dera, nunca consegui aprender a dançar lambada e não é por falta de coordenação motora, simplesmente não consigo!

beijos

João da Silva disse...

Adoro o jeito como você relata os fatos! Hahahahaha! Rio muito e me divirto muito por aqui.
Beijos carinhosos do João

Re disse...

hahahaha Lambada.... Eu me achava a própria dançando.... Ainda bem que esta fase passou, assim como a fase da saia balonê... Tem erros que cometemos só 1 vez na vida, já outros.... A gente insiste....
beijos
Re

Déa disse...

KKKKKKKKKKKK Estou tendo cólicas de rir da situação! Menina, eu era craque na lambada. Nucna tive aula não, acho que sempre tive jeito com dança mesmo... Pegava os passos só de ver o povo dançando, o que matava minha irmã de raiva que nucna conseguia, mesmo quando eu ensinava (tudo bem que eu não tinha muuuuuita paciência com ela). Mas hoje, enferrujada e com vários quilos a mais, acho que não deve sair mais nada não...
Beijos

Karlinha disse...

Huahuahau!ÓOOOtimo!Eu era criança nessa época, uns 7 anos eu acho!rsrsr!Tinha 2 conjuntinhos que vovó fez, com a saia bem rodada e bustiê igual da novela da época!kkkkkk!Mas era muito gostoso mesmo!Agora, dança de salão é um luuuuuxo!Boto muita fé de vc fazer e arrasar!

Cláudia disse...

Olha, lambada me traumatizou desde que fui com minha filha comprar umas roupas pra ela viajar pra Porto Seguro. Ela pegou uma saia de babados, molinha:
- ai filha, credo, parece saia de dançar lambada!
- mãe, o que é lambada?
Pois é...

Mas eu imagino a cara do marido. Aliás, os maridos não têm a menor noção do que a mulherada é capaz de aprontar quando se junta.

Sobre a dança de salão, eu to fazendo e você vai adorar! Tango eu só tive o comecinho, mas é uma das minhas preferidas.

beijo

Moni disse...

eu tbm adorava lambada .... minha mae até achava graça qnd eu imitava dançando e cantando.... mas meu pai rum... não agrdava nadinha!!! hehehe beijos

Loira e Morena disse...

Mulher, to rindo mtooo com sua historia...imaginando o cara chegando e a mulher dele la no maior rebolabola com o professor..ahahahahahaha
E vcs saindo de fininho?!..tipo Ih deu merda, corre, corre..aahahhaha

Qud eu era pequena eu tbm dançava lambrada, tinha roupinha e tudo...que saudades dessa epoca..rs

BEijoca sda Loira

Helena Cortez disse...

hahahahahahahhahahahahahahahhahahahahahahahhahahahahahahahahhahaha peraí que tá doendo a bochecha... hahahahahahhahahahahahahahah

Gaby disse...

Bicho.. minha única pergunta é como essas coisas acontecem só com você? Aliás, tudo acontece contigo.. adoro vir aqui pois sei que é risada na certa.
Bjão
Gaby

LK disse...

Gostei da historia me divertir muito...e Lambada é bom d+...eu sei dançar lambada pq meu pai é professor tb....Mas gostei..Fui!