DEPOIS DO THE END - Uma Linda Mulher

Vivian não conseguia acreditar na quantidade de elogios que chegava por e-mail. No começo, achava que escrever uma coluna dando dicas de sexo era maluquice. Mas a falta do que fazer e, principalmente, a ausência do Edico, apelido carinhoso que deu a Edward, tinham falado mais alto. Assim nasceu a "Dou-lhe Uma". O nome tinha sido idéia da Mia, a única pessoa da alta roda que sabia do passado de Vivian.
- Mas Mia, esse nome é ridículo!
- Que nada. "Dou-lhe Uma" não é um título. É uma promessa! E tem duplo sentindo. Pensando bem, têm vários como...
- Eu entendi, Mia. Não precisa desenhar.
- Tenho pensado nessa coluna desde o dia em que você falou pra eu me pendurar no ventilador. Levei Frederico a loucura.
- E ao hospital também, né, Mia?
- O ventilador não tava bem colocado.
- Sei.
- E eu tava mais gordinha.
- Sei.
- Eu acho que você pode começar ensinando a técnica do ventilador. É só colocar um asterisco com aquela defesa em letras minusclinhas para evitar problemas futuros.
- Vou acabar sendo processada pelo Procon.
E lá se vão alguns anos de sucesso, pensou Vivian. Pena que não consiga testar 1/3 do que escreve com Edico, que vive cansado e de mau humor.
- Oi – disse Edico, seco, desviando o pensamento de Vivian.
- Por que demorou tanto?
- Estava trabalhando. Trabalhando de verdade, sabe?
- O que quer dizer com isso, Edico?
Edico jogou o jornal na mesa e Vivian viu sua coluna. Ele tinha feito um bigodinho e colocado óculos na foto dela.
- Edico, o que houve? Tá bebendo água do vaso?
- Sabe qual foi o grande assunto do escritório hoje? – perguntou, acrescentando uns chifrinhos à foto.
Vivian olhou de rabo de olho para o "Dou-lhe Uma", apertou os olhos, mas não conseguiu ver o tema. Começou a ficar preocupada.
- Eu pensei que você não lesse o que escrevo.
- E adianta? Pelas piadinhas sempre deduzo qual é a bola da vez. O manobrista me olha com cumplicidade, como se soubesse de todas as nossas intimidades. Pior, das SUAS intimidades.
- Edico, você está exagerando.
- O que significa ficar com olhinhos feito asas de borboleta? Heim?
- Edico...
- É o que está escrito aqui. A técnica do rompimento do casulo, vai deixá-lo com os olhinhos feito asas de borboleta.
- Edico...
- Isso foi a primeira coisa que ouvi hoje do Marcão. Ele sorriu e ficou piscando várias vezes pra mim.
- Marcão? Aquele advogado vesgo?
- É. Pensei que ele estivesse tento um ataque ou sei lá o que. Mas aí, ele me deu um tapinha nas costas e perguntou se era mais ou menos assim que eu ficava.
- Edico...
- Que diabo de técnica é essa, Vivian? Isso é coisa nova. E não foi comigo que você aprendeu. Você tem outro!
- Tá louco Edico?! Eu amo você.
- Que ama, que nada. Quero saber de onde vem tanta inovação. Tanta bateção de asa.
- Você quer saber a verdade? Eu tô sim, aprendendo com outra pessoa. Mas é tudo culpa sua!
Edico ficou estático com a confissão. O que tinha saído errado, ele pensava. Um filminho passou pela cabeça. Vivian, nua, deitada na cama com outro, tentando anotar todos os movimentos, como na dança de salão. Vivian pedindo ajuda pra escolher aqueles nomes. E nome é uma coisa importante. Exige confiança. Ela não o deixou escolher nem mesmo o nome do peixinho dourado.
- Você está me escutando, Edico?
Edico perdeu o começo da conversa, mas disse que sim. Que ouvia cada palavra.
- Mas para continuar escrevendo bem, eu precisava de você. Para testarmos coisas novas. E você nunca estava a fim. Eu comecei a perder a criatividade e minha editora do jornal me chamou a atenção. Só me restou voltar às ruas. Edico sentou, pálido. Tentou se recordar de alguma peruca curta loura ou bota longa preta no closet. Só lembrou do chicotinho, mas aquilo tinha sido sugestão dele.
- A Kit me ajudou. Ela sabe de coisas inimagináveis. Só pra você ter noção, nunca tive coragem de falar sobre a técnica da taruíra espevitada.
- Kit? Aquela amiga baixinha que você dividia o apartamento?
- Sim, Kit. Agora ela é cafetina.
- Você tem uma cafetina, Vivian?!
- Não, Edico. Nós somos amigas.
- Amigas? Ahh... agora entendi tudo. Você virou sapatão.
- Tá difícil conversar com você.
- Difícil é ouvir isso e ficar com cara de festinha de aniversário. Ou com olhinhos feito asas de borboleta.
- Edico, presta atenção. A Kit me conta as novas tendências, entende? Todas as novidades, as curiosidades, as perplexidades. Eu nunca te traí, homem.
Edico relaxou um pouco.
- Você jura?
- Claro.
- Não fez workshop?
- Pense que tive informações adquiridas em palestras.
- Nada de prática?
- Só teoria.
Ela sorriu. Ele suspirou aliviado e confessou que tinha perdido a vontade de ir pra cama porque imaginou que ela andava fazendo pesquisas de campo. Em seguida, pegou Vivian no colo e foram para a sala do piano, que andava muda há muito tempo. Mas naquela noite, os vizinhos tiveram que chamar o disk-silêncio. Não agüentavam mais ouvir tanto Tico-Tico no Fubá.

14 comentários:

Lê... disse...

Ai ai,como esses homens são inseguros não?Eu heim,não se garantem...rsss
Mas o bom é que com eles,no fim, tudo acaba em sexo.rs

Adorei!!!Voce escreve muito bem,Anna!

Boa semana,beijo.

Lilian Devlin disse...

MUITO LEGAL! Adorei!
E depois eu vou te passar meu e-mail particular, para vc me mandar o que pensou ser uma "técnica da taruíra espevitada"! (risos, muitos risos!)
Bjão!

Floor de Liz disse...

ADOREI!
tu escreve mto bem!
perfeito
morri de ri..rsrs
"O que significa ficar com olhinhos feito asas de borboleta?"

parabéns ^^

Re disse...

Vc escreve muito bem Anna... AMEI!!!!
beijos
Re

Paula disse...

Humm, eu adoro o filme e adorei a continuidade dele... Essas suas estorias são muito, muito legais!

beijos

Lê... disse...

Olá!Então,qto aos ingressos não sei de ninguém,Anna!Mas que pena que eles não poderão mais ir...

De qualquer forma,caso fique sabendo de alguém que queira, eu te aviso.

beijo.

João da Silva disse...

Adorei! Aqui as metáforas se abraçam e dançam, ao som magistral da orquesta de letras que você lhes dá, minha linda!
Quem tem o dom de escrever é assim, mesmo: leva o seu leitor para cá e para lá, pondo-o num mundo à parte, numa terceira dimensão que se abre a cada linha, a cada frase, a cada parágrafo.
Obrigado por este prazer!
Beijos carinhosos, todos com aroma de rosas, do João

Lalo Oliveira disse...

De fato, acho que ela precisa escrever com um pouco de impessoalidade, afinal, Edico não tem que pagar pelos escritos dela. Questão até de ética.
Mas, no fim, acabou certo para ambos. rsrs

www.poeses.blogspot.com

Loira e Morena disse...

Adoreiiiii o textooo!!!!!

Beijocas da loira

Paulo Bono disse...

não vou nem pedir calma pra esses dedinhos nervosos. sensacional o diálogo. gostei também do blog.
abraço

Paulo Bono disse...

não vou nem pedir calma pra esses dedinhos nervosos. sensacional o diálogo. gostei também do blog.
abraço

isaBela araújo silvA disse...

vc é altamente criativa e adoro essas histórias, estava sentindo falta... qdo eu tiver uma filha(o) vou contar a história da concepção pra vc me sugerir o nome da criança pq DOU-LHE UMA foi formidável... kkkkk.

Karlinha disse...

Pq eu tenho a impressão de já ter lido?

Marcos Costa Melo disse...

hehe... essa histórias pós the end são ótimas...