Desabafo contra as drogas



Agora há pouco fui atender a campainha e, antes mesmo de chegar à porta, senti o maior cheiro de maconha. Quando atendi, meu coração apertou. Era um carinha aqui da rua que vi crescer. Ele veio tentar me vender uma sombrinha velha para dar dinheiro ao pai. Uhum, sei. Botei ele pra correr. A mãe dele é uma pessoa muito simpática e não sabe mais o que fazer pra tirar o filho das drogas. Ele já foi internado algumas vezes, mas não conseguiu se recuperar. Ao mesmo tempo que fico com pena, eu morro de raiva pela burrice das pessoas que resolvem experimentar essas porcarias.

Eu devo a minha ojeriza às drogas graças a “Eu, Christiane F., 13 anos, Drogada e Prostituída”. Esse filme barra-pesada, que vi aos 12 anos, me deu uma das maiores certezas que tenho na vida: de que nunca usarei drogas. NUNCA. Tirando aí alguns cafajestes que, às vezes, caio na besteira de experimentar. Quem viu o longa-metragem (e/ou leu o livro, que também é uma bela porrada e tem fotos reais) sabe do que estou falando. Foi muito assustador ver a transformação da adolescente em trapo humano. E isso ficou marcado na minha cabeça. Já tive muitas oportunidades de cheirar lança, fumar maconha e por aí vai. Não quis. Não tenho a menor curiosidade de saber como é. Além do medo, tenho um grande respeito pelos entorpecentes. Porque vamos combinar, né? A onda deve ser uma delícia, pelo menos nas primeiras vezes. Se fosse ruim, claro que ninguém voltaria a experimentar. É questão de lógica.

Drogas pesadas são um problema para quase 26 milhões de pessoas no mundo. As delicinhas matam 200.000 pessoas por ano, segundo a ONU. Agora eu pergunto. Quantas dessas pessoas achavam que o primeiro traguinho, que o primeiro pozinho, que a primeira balinha, que a primeira pedrinha iam torná-las estatísticas? Duvido que alguma. Aí alguém vai dizer: mas são as drogas pesadas! Para se ter uma overdose, ou chegar ao fundo do poço, tem que haver uma iniciação. Como ter a certeza absoluta de que o uso recreativo passará a ser diário, e depois incontrolável? Alguém acha que o Fábio Assunção e a Amy Winehouse sequer cogitaram passar o inferno que estão passando quando experimentaram pela primeira vez? Alguém acha que Elis Regina e a Cássia Eller imaginaram que acabariam mortas seguindo outra carreira? Essa certeza absoluta não existe. 200.000 pessoas pagaram para ver. Uma lástima.

Outra coisa que me mantém afastada é o profundo ódio que nutro pelos traficantes. Não vou dar meu suado dinheirinho pra bandido. Sim, porque são principalmente os usuários que abastecem esses filhos da puta de dinheiro e ainda têm a cara de pau de participar de passeatas a favor da paz e reclamar da crescente onda de violência que mata milhões de pessoas pelo mundo. Hipócritas. É com a venda de um baseadinho aqui, um docinho ali, uma pedrinha acolá, que assassinos como Abadia, Fernandinho Beira-Mar e Marcola estão poderosos. Quantas armas quem usa drogas ajuda a comprar? Quantos cartéis quem usa drogas ajuda a manter? Quantas mortes quem usa drogas tem nas costas? E isso não se aplica apenas aos viciados. Isso vale também para os turistas. É a velha história do “de grão em grão”.

Aí alguém vai falar: mas se liberar, os traficantes não terão mais tanto poder; como se esses marginais não ganhassem grana comercializando também armas e outras coisas. Já ouvi muito que, se fosse liberado, o baseado perderia o encanto que exerce em alguns desajustados. Aquela típica turminha que deseja se auto-afirmar fazendo merda e acha que está abafando. Não acho, ou a venda de cigarros e bebidas alcoólicas seria cada vez menor, uma vez que são compradas com toda a facilidade por quem tem menos de 18 anos. Outro papo furado, usado principalmente pelos maconheiros, é que a erva faz menos mal do que o cigarro ou o álcool, como se alguém achasse que esses dois últimos são inofensivos, apesar de liberados. Só, que apesar de leve, a maconha funciona como o 1º degrau para as drogas mais pesadas. E não acho que o Estado deva incentivar essa subida.

Mas o argumento que mais me tira do sério é que liberando, o país recolherá mais impostos. E o Brasil vai arcar com um aumento de clínicas decentes para dependentes, caso eles resolvam parar com o uso, quando não consegue ajudar na recuperação nem dos alcoólatras? Vai ceder drogas de boa qualidade para que ninguém consuma porcaria e detone ainda mais a saúde, quando não controla nem a qualidade do ensino? Vai disponibilizar pequenas quantidades para que os viciados não precisem traficar, roubar, matar, se prostituir ou virar mendigo, quando muitos ainda morrem de fome? Vai manter centros de consumo com psicólogos para que os viciados tenham lugar seguro e, de quebra, ainda sejam trabalhados para descobrir que se drogar não é legal? E se não é legal, porque foi liberada? Porque não basta apenas liberar. Tem que haver uma responsabilidade nesse ato, mesmo que seja apenas a maconha que, como já disse antes, é o tapete de boas-vindas.

Já estava para escrever este post há um tempão, mas fui deixando passar. Muitas pessoas vão me achar muito radical e exagerada, mas em alguns assuntos sou assim mesmo, 8 ou 80. E depois do moleque, que eu vi crescer, ter aparecido na minha porta querendo me vender uma porcaria de sombrinha velha, fiquei louca da vida. A propósito, parece que Christiane F. teve uma recaída depois dos 40 e perdeu a guarda do filho.

10 comentários:

Milena disse...

Olá!

Obrigada pela visita no meu blog, para agradecer vim conhecer o seu.. rs. Parabéns pelo blog, tá mto legal.

Passe por lá qndo quiser oks?

Bjs

Karlinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Karlinha disse...

Eu vi o filme, mas o livro deve ser ainda mais chocante!

Lê... disse...

Olá querida!Entendo seu desabafo,mas sobre esse assunto não tenho uma ideia formada não.Realmente não sei o que é pior...se ser proibido ou liberar.
Acredito que tudo que é proibido interessa mais,chama mais atenção...
Mas por outro lado somos um pais sem educação e menos ainda conscientização,isso claro,pra grande maioria de pessoas.
Vejo muitos pais despreparados pra educarem filhos fazendo-os as pencas e depois deixam pra VIDA educar...
Sei lá...rs
Mas o fato é que a atual 'metodologia' de combate é ridicula.Afinal o que vc disse é certo,se fosse ruim,não teriamos tantos doentes!
Algo tem de ser feito e urgente,mas o que ...isso nem imagino!...
Acho vicios,todos,por demais complicados.

boa semana,show e beijão.

Lilian Devlin disse...

Eu vi o filme e li o livro. Coisa mais deprimente.
E eu tô com a Lê. Não sei realmente se a liberação é o caminho. Eu só sei que o caminho das drogas é o mais furado possível. E vou adotar a sua idéia e assim que meu filho estiver com uns 12/13 anos, darei o livro para ele ler, como (mais uma) forma de alerta.
Bjs!

Cláudia disse...

Assino embaixo!
bj

Paula disse...

Olha, eu vivi a mesma experiência que você, mas somente li o livro. Como aquilo tudo me impressionou. A decadência de um ser humano por causa da droga, a dependência e o martírio que o tal barato causa na vida da pessoa é, para mim, algo inconcebível. Concordo com você em tudo,sou contra a liberação das drogas, totalmente contra. Não acho que exista uma justificativa plausível para isso. Agora, o pior é a turma de descolados, essa sim que sustenta o tráfico, que acha o máximo ir para a balada e ficar doidão. Morro de preguiça...

beijos

Quase Trinta disse...

ONde assino em baixo do seu texto?

Eu tb li o livro qd tinha a sua idade.

bjs

Moni disse...

pois é... a cada dia que passa eu me assusto mais com a expansão de usuarios de drogas e me surpreendo ainda mais por descobrir q pessoas tão proximas a mim estejam envolvidas com isso e pensam q é só um trago. beijos

Déa disse...

Eu não acho você radical não. Um dos meus irmãos enveredou por este caminho. O resgate dele foi e ainda é penoso. Não só para ele, mas para todos nós da família. Mas ele um dia quis parar. e estamos todos nós ao lado dele, fazendo o que precisa ser feito: ficamos com ele.
Beijos